A manipulação da opinião pública para a manutenção da miséria, da fome e da pobreza tem se perpetuado na cultura popular, a qual considera uma normalidade a situação de exploração e de insustentabilidade. O sofrimento é considerado como uma ordem natural das coisas, como se fosse normal o enriquecimento ilícito dos poderosos e a agonia esfomeada e torturante do choro de crianças desamparadas, como se houvesse um equilíbrio entre o caviar e o champanhe desperdiçado e os cadáveres surgidos dos recursos que são desviados para pagar as orgias.
A submissão é aceita como uma ordem divina e natural, e se rebelar contra é considerado um ato de irresponsabilidade e desobediência civil, onde as próprias pessoas que sofrem as mesmas violações de direitos agem repressivamente contra quem se rebela, e essas pessoas tentam defender a dita "ordem natural" como uma prova de civismo e obediência.
De 88 pra cá, muita tecnologia surgiu mas na política pouca coisa mudou, afinal, sob o lema da democracia, grupos da corrupção permaneceram intactos e conseguiram proteger seus domínios e perpetuar o comando com seus descendentes, basta observar que as famílias comandam os cargos de prefeita, deputado, senado e secretários de estado, tudo com uma naturalidade espetacular e com o apoio do povo, que grita freneticamente correndo nas ruas balançando as bandeiras de seus candidatos. A família do senador é tão linda nos cargos.
Tudo pelo que se sonhou e lutou, a ilusória democracia, foi esfacelada pelos interesses individualistas de quem queria dominar os lucros do Estado, dividindo a máquina pública como propriedade privada, utilizando os cargos e as vagas dos servidores públicos para formar currais e senzalas eleitoreiras, onde o cidadão deve se submeter às vontades dos políticos para não ir para o olho da rua e morrer de fome. Os recursos, que são desviados via editais, escritos impondo condições que direcionam a candidatos restritos e que são impossíveis de ser alcançados pelas organizações de base e mais populares, se tornam objeto de manobra política, colocando cabrestos em líderes sindicais, mobilizadores sociais, lideranças comunitárias, reduzindo-os a cabo eleitoral.
Os concursos, onde tantos candidatos se esforçam ao extremo para conseguir uma das vagas, são alvo de escândalos de fraudes e cancelamentos, e muitas vezes as vagas oferecidas ou são destinadas a candidatos indicados ou para cargos comissionados, geralmente parentes de políticos ou de funcionários dos órgãos da justiça, dos tribunais, procuradorias e defensorias.
Revendo uma longa caminhada pelos direitos humanos, onde quem mais viola os direitos aparece como defensor e se promove com demagogias e entopem os bolsos com dinheiro público, observo aqueles que ainda lutam incansavelmente e pacientemente pela justiça social e que sempre são vistos como exemplo de fracasso profissional, sem fama e sem dinheiro, como escórias da sociedade.


